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Histórico - Distúrbio Autístico do Contato Afetivo PDF Imprimir E-mail
Escrito por Alexandre Costa e Silva   
Qui, 17 de Abril de 2008 21:13

Dr. Leonard KannerEm 1943, Leo Kanner, outro psiquiatra austríaco radicado nos Estados Unidos, estudou 11 casos que chamaram sua atenção por terem diagnóstico de esquizofrênicos, mas cuja característica mais marcante era o autismo. Assim, cunhou o termo Distúrbio Autístico do Contato Afetivo , título do clássico artigo onde ele expõe sua experiência inicial.
Como era muito precoce (ainda mais que a demência do começo do século), surgia entre o segundo e o terceiro anos de vida, Kanner chegou a formular a hipótese inatista, ou seja: as crianças já nasceriam com o distúrbio. No entanto, em seus contatos com os pais, percebeu que eles eram pessoas cujo relacionamento com os filhos lhe pareceu frio ,excessivamente racionalizado. A descrição que faziam do comportamento dos filhos era demasiado científica para quem tinha filhos tão gravemente prejudicados.
Assim, desenvolveu o conceito de "mães geladeira" para referir- se às mães supostamente "autistogênicas", que com seu comportamento frio, distante e intelectualizado provocou uma hostilidade inconsciente da criança direcionada a eventos que demandam habilidades sociais.

Psicogênese


As duas hipóteses de Kanner influenciaram dois grandes grupos de investigação etiológica (relativa às causas) do autismo: as correntes psicogênicas, na esteira da "refrigeração emocional", pressupunham uma causa emocional ou psicológica para o fenômeno; embasadas em um referencial psicanalítico, ou de alguma forma derivado da psicanálise, que à esta época era moda nos Estados Unidos, devido à emigração de analistas judeus expulsos da Alemanha pelo III Reich, em direção à "Terra da Liberdade".
Dois dos principais expoentes dessa corrente merecem uma análise mais pormenorizada de sua atuação teórica, pois suas teorias exerceram um fascínio especial na década de 50 do século passado: Bruno Bettelheim e FrancisTustin.
A década de 50 foi marcada pela divulgação das câmaras de gás, das torturas, experimentos utilizando seres humanos como cobaias e outros crimes monstruosos cometidos pelos nazistas contra a humanidade. Termos como "Campo de Concentração" tinham um impacto muito mais forte àquela época do que agora, mesmo com toda a mediação hollywoodiana sobre o assunto.
Dr. Bruno BettelheimAssim, Bruno Bettelheim chamava as famílias de autistas de "campos de concentração", e à sua instituição de "campo de refúgio", gerando o impacto que levou muitas famílias (paradoxalmente) a procurarem seus serviços, que incluiam incitar as crianças a bater, xingar e morder uma estátua que simbolizava a mãe (para o terapeuta, pelo menos). As crianças eram separadas da família, tal como o próprio Bruno Bettelheim abandonou a sua, e não se tem notícia de que tenha mudado seu ponto de vista sobre o assunto até que tirou a própria vida, num último ato insensato.
Francis Tustin, ao contrário, preocupava- se bastante com o impacto de suas idéias, principalmente no meio psicanalítico. É dela a idéia de uma fase "autística" no desenvolvimento das pessoas normais.Todos nós, segundo Tustin, somos autistas no início da vida, pelo fato de que não exibimos comportamentos sociais (facilmente reconhecíveis como tal) nos primeiros meses após o nascimento. Essa fase autística normal recebe o afeto materno, que funciona como uma ponte entre este estado e a vida social ulterior.
Dra. Frances TustinSe este afeto fosse suprimido, substituído pela "frieza emocional" da "mãe autistogênica", a criança não conseguiria atravessar o abismo entre o autismo e a vida social ficando presa num mundo autístico patológico.
Na década de sessenta, num artigo intitulado "A perpetuação de um erro", Tustin lamenta a própria avidez de sentido, renegando a idéia de umestado autístico normal no desenvolvimento.
Estas idéias fomentaram, no entanto, uma enorme busca de atendimento psicanalítico, que se recomendava ser diário, às vezes sem pular nem o domingo. Um tratamento caro, que levou muitas famílias a venderem carros, casas e outros bens na esperança de que - como o problema era delas - se fossem psicanalisadas, a cura estaria garantida.
Isso, porém, não ocorreu. Muitos pais perceberam, mais cedo ou mais tarde, que havia um enorme erro naquilo tudo, que a eles mais que a qualquer um não interessava perpetuar, pois eles pagavam a conta, de erros que não haviam cometido.
Em nossa experiência na Casa da Esperança convivemos com um coronel reformado da aeronáutica que teve sua promoção a esta patente adiada por quase uma década - sob a única alegação de que ele era pai de uma criança autista. Era uma explicação circular: "Sabe porque o menino é autista? porque seus pais são hostis, ou inadequados. Sabe porque ele é inadequado? porque é pai de um menino autista."

Última atualização em Qui, 20 de Agosto de 2009 17:15
 
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