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Sex, 11 de Abril de 2008 00:00
Dra Fátima Dourado - Médica, Diretora Clínica e Presidente da Casa da Esperança

" Cada dia que nasce, para nós, que fazemos a Casa da Esperança, é obrigatoriamente um começo, pois sempre desponta com novos desafios. É o dia-a-dia de transformar dificuldades aparentemente insuperáveis em idéias criativas e de transformar ocasionais quedas em saltos de dança. Nos últimos 14 anos, esse cotidiano nada corriqueiro tem proporcionado sensíveis melhoras na qualidade de vida de pessoas autistas e de suas famílias.


Em 1993, quando resolvemos iniciar o trabalho com crianças autistas, a força que me movia era enorme, tal como hoje. O desafio inicial era tirar meus filhos Giordano e Pablo do limbo social em que se encontravam. Era necessário devolver-lhes direitos de crianças que lhes tinham sido roubados, garantir-lhes um tratamento decente, uma escola, um caminho, uma esperança.


Logo descobri, o desafio era bem maior. É que havia dezenas de crianças em situações idênticas. Famílias inteiras destroçadas, sem ter a quem recorrer em busca de diagnóstico, orientação, escola e tratamento para os seus filhos. Juntei-me a outras famílias e demos os primeiros passos dessa caminhada repleta de obstáculos. Estudamos, descobrimos caminhos, prospectamos tratamentos. Enfim, entramos em ação para garantir direitos de cidadãos para os nossos filhos.

Gigantesco desafio! Montamos uma equipe multiprofissional para construir e socializar o conhecimento e conseguimos uma parceria com o poder público. Aos poucos os primeiros resultados positivos foram surgindo. A esperança ganhava fôlego em nossos corações à medida que as crianças paravam de se agredir e obtinham pequenas interações com outras pessoas, o que ia amenizando a dramática convivência de antes da existência da Casa da Esperança. Conseguimos uma bela sede própria, treinamos professores da rede pública, inserimos estudantes com autismo na rede regular de ensino, trouxemos o mundo do trabalho para jovens e adultos com autismo e vimos o nosso primeiro jovem com autismo concluir uma universidade.

Novos desafios, porém, nos cutucavam. De todos os lugares do Brasil e de muitos outros países chegavam novas crianças. Os tratamentos que haviam se mostrado eficazes, não se aplicavam a todos os casos, o que exigiu de nós novas pesquisas. E do mundo além dos muros da Casa da Esperança, chegava o clamor de crianças com autismo criadas em cárceres privados, os relatos de tratamentos desumanos e desalentadoras notícias de recursos subitamente subtraídos pelo poder público, o que comprometia seriamente a continuidade do nosso trabalho.

Nada disso abateu nosso ânimo, porque era preciso não apenas continuar, mas aprofundar e ampliar o nosso trabalho, de modo que mais e mais pessoas com autismo e suas famílias tivessem uma vida melhor. Foi assim que conseguimos o credenciamento do SUS, o que nos deu suporte financeiro para garantir a manutenção e ampliação de nosso trabalho. Foi assim que, tendo em vista o aprofundamento do conhecimento sobre o autismo, firmamos uma parceria de caráter técnico-científica com a americana Universidade de Yale e promovemos congressos, jornadas, além de publicarmos livros e trabalhos científicos.

Hoje, além da sede de Fortaleza, que atende cerca de 350 pessoas com autismo,  estamos com uma nova sede em Ananindeua, no Pará. O nosso desafio inicial transformou-se, nesses quatorze anos, numa enorme rede de parceiros, idéias, cérebros, corações, vidas humanas colocando todo o seu potencial a serviço das pessoas com autismo. Para nossa alegria, a genética e a neurociência social aplicada apontam novas perspectivas promissoras para nossa luta. Já não estamos sozinhos. Rompemos o Autismo Social. Participamos de um grande e vigoroso movimento mundial de luta pela saúde, educação e dignidade de pessoas autistas.

Este é o trabalho da minha vida, mas não é trabalho para uma vida apenas, mas sim para muitas vidas, bem mais importantes e nobres que a minha. Vidas que se consagram à tarefa de construir, a cada dia, caminhos transitáveis e seguros entre pessoas autistas e não autistas. "





Fátima Dourado

Última atualização em Seg, 17 de Agosto de 2009 13:56
 
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