O Modelo SCERTS


A Casa da Esperança sempre adotou uma metodologia de trabalho multiprofissional, interdisplinar e multimodal. A partir de 2006, como resultado de uma parceria  com a Universidade de Yale e o apoio financeiro da Fundação Verônica Bird, acrescentamos a nosso trabalho princípios e técnicas da abordagem SCERTS (Social Comunication, Emotional Regulation & Transactional Support), graças à realização de treinamento com diversos especialistas americanos coordenados por Amy Laurent, uma das criadoras do método. O treinamento ocorreu na própria sede da Casa da Esperança.

O modelo SCERTS é, a  nosso ver,  o protótipo das metodologias inovadoras voltados para crianças com autismo por estabelecer como prioridades o enfrentamento dos  problemas básicos do autismo e por ser aplicável às  suas mais diferentes manifestações.  O SCERTS tem como objetivo prioritário o desenvolvimento da comunicação e da regulação da emoção e propõe o uso de várias estratégias de suporte ao aprendizado (suporte transacional).

Baseado em  pesquisas sobre o desenvolvimento infantil típico e teorias sociais de aprendizagem, o SCERTS propõe que atividades desenvolvidas com a criança sejam estendidas a sua casa e à comunidade. Essa medida visa facilitar a generalização da aprendizagem por parte da criança. O modelo preconiza  a participação da criança em todas as atividades adequadas a seu nível de desenvolvimento, em casa e na escola. Os colegas, professores e  familiares devem ser vistos como parceiros do programa. Dessa forma, o suporte transacional das ações desenvolvidas não se refere apenas às mudanças no ambiente de aprendizagem, mas, e principalmente, aos ajustes atitudinais de todos os parceiros de vida da criança.

O SCERTS, na realidade, é um trabalho de equipe, em que a expertise de vários profissionais é somada ao conhecimento da família para ajudar a criança a se desenvolver no maior número possível de ambientes.

De acordo com o manual  SCERTS  ( PRIZANT; WETHERBY; RUBIN; LAURENT; RYDELL, 2006 ) o foco do modelo são  crianças do pré-escolar e ensino fundamental.  No entanto, muitos dos seus princípios  podem ser adotados  para jovens e adultos. O currículo é centrado no desenvolvimento de habilidades que, normalmente,  ocorrem dos oito meses a 10 anos de idade, mas todos sabemos que muitas pessoas com autismo continuam a apresentar déficits desenvolvimentais até a idade adulta.

Comunicação Social

No que diz respeito à comunicação social, o Modelo SCERTS  prevê a organização de metas  e estratégias que visam o desenvolvimento da comunicação desde os estágios pré-verbais, quando o educando é denominado parceiro social, passando pela aquisição da linguagem simbólica, quando é chamado de parceiro de linguagem, até os níveis mais sofisticados de comunicação, em que as estratégias de ensino se aplicam a um parceiro de conversa.  Dessa forma, toda  criança com autismo pode se beneficiar da utilização da metodologia, pois o objetivo final é ajudá-la a se tornar um participante cada vez mais competente, confiante e ativo em atividades sociais. Isso inclui não apenas se comunicar e brincar com os outros em atividades diárias, mas compartilhar alegria e prazer nas relações sociais.

Sinais e símbolos visuais são usados, frequentemente, para incentivar uma criança pré-verbal no desenvolvimento da fala, assim como crianças verbais a tornarem-se mais criativas no uso da linguagem verbal. Dizemos, então que o modelo valoriza a comunicação multimodal. É muito importante e desejável para uma criança ter  várias  maneiras de se comunicar, de modo que se uma estratégia não funcionar (por exemplo, fala), a criança possa mudar para outra (gestos, imagens, outras formas de comunicação aumentativa e alternativa. Um alto nível de competência comunicativa é definida pela flexibilidade da criança para usar diferentes meios  de comunicação.

Inclusão Escolar

Crianças típicas costumam fornecer bons modelos de habilidades sociais e de linguagem. Assim sendo, o SCERTS defende uma abordagem inclusiva da educação, por ser a escola regular um local que oferece excelentes oportunidades de  aprendizagem.  O modelo também pode ser implementado em atendimentos individualizados, mas estes modelos menos inclusivos vão comprometer a consecução dos objetivos e estratégias de ensino, uma vez que brincar com crianças da mesma faixa etária é um apoio transacional insubstituível para o desenvolvimento  da  comunicação social.

A escolha e a colocação da criança na escola devem ser precedidos, é claro, de criterioso processo que leve em conta, principalmente, as habilidades e necessidades individuais da criança. Devem ser consideradas suas habilidades de comunicação, assim como suas competências emocionais de auto regulação.  Além disso, as prioridades da família e os recursos disponíveis na comunidade precisam ser apreciados, nessa escolha.

Suportes Transacionais

A criança com autismo deve receber suportes transacionais, destinados a promover sua capacidade de aprender, prestar atenção e se sentir incluída no ambiente escolar. Esses suportes devem ser  componentes essenciais do plano educacional da criança. Na Casa da Esperança, toda uma gama de suportes terapêuticos e pedagógicos é oferecida às crianças no contraturno da escola regular.

 Em uma sala de aula inclusiva, esses apoios podem consistir em suportes interpessoais (por exemplo, ajustes no estilo comunicativo) e suporte na aprendizagem (por exemplo, modificações ambientais e curriculares). A implementação desses tipos de apoio individualizado dentro das rotinas naturais e atividades de sala de aula ajuda a promover um ambiente inclusivo,  propício ao  desenvolvimento da regulação  mútua e de auto regulação, componentes essenciais do modelo SCERTS. A capacidade de regulação emocional permite à criança, por outro lado, ser um membro mais ativo e participante do ambiente escolar. Tornar a criança com autismo um membro ativo das atividades e rotinas escolares amplia, por sua vez, as suas possibilidades de aprendizagem. Muitos dos suportes transacionais implementados pelos parceiros (professores e colegas) sejam eles acomodações ambientais (redução de estímulos) ou adaptações (suportes visuais) vão beneficiar todos os alunos de uma sala de aula inclusiva.

O Modelo SCERTS fornece uma estrutura para o desenvolvimento de atividades sociais nos mais diversos ambientes, desde os semiestruturados aos mais naturais.  As prioridades de qualquer programa de educação para crianças com autismo deve ser, no entanto, o desenvolvimento de  habilidades  funcionais na comunicação social e regulação emocional. A família e suas prioridades devem ser contempladas na fixação dos objetivos e das metas educacionais e estas devem sempre, estar adequadas ao nível de desenvolvimento da criança atendida.  Se não incluirmos a família no processo, não vamos obter êxito no nosso empreendimento educacional, pois é na condição de familiar que a criança com autismo vai participar da maioria das situações de aprendizagem natural ao longo da vida.

As interações das crianças com autismo com outras sem necessidades especiais  são vistas como uma parte essencial do apoio à comunicação e do controle emocional no modelo SCERTS. Em contextos naturais de aprendizagem, existem inúmeras oportunidades para desenvolver habilidades de comunicação funcional e social, assim como de resolução de problemas. Essas oportunidades são fundamentais, ainda, para ajudar crianças típicas e outros parceiros  a se tornarem pessoas mais  sensíveis e habilidosas para desenvolver relações com crianças com diferenças de desenvolvimento. A educação inclusiva é, portanto, uma oportunidade de propiciar o desenvolvimento de habilidades sociais e de comunicação para todas as pessoas envolvidas no processo. 

O modelo SCERTS prevê  a participação de  familiares e  de uma equipe multiprofissional no desenvolvimento de atividades e estratégias, por acreditarmos que essa é a configuração que melhor se adequa às necessidades das crianças com autismo. O modelo é destinado a todas as crianças com autismo. Não acreditamos, portanto, que nenhuma criança  esteja despreparada para participar do processo e necessite de um acompanhamento individual para adquirir prontidão para isso. Não há evidências de que a aquisição de competências de prontidão dessa forma seja  um pré-requisito para o aprendizado e desenvolvimento de crianças com transtornos do espectro do autismo. As metas nos domínios da regulação emocional devem ser definidas  e os apoios necessários fornecidos a partir do início do programa. O estabelecimento das metas e suportes é que vai promover a atenção, o  envolvimento e a disponibilidade para aprender.

Etapas do Modelo

 

O modelo SCERTS foi concebido como um todo   abrangente e integrado, com um processo sequencial e lógico desde a avaliação, passando por uma programação educativa que vai dos objetivos simples aos mais sofisticados, na busca da competência comunicativa e regulação emocional. Embora possa ser adaptado, de acordo com as necessidades da criança, da família e dos prestadores de serviço, os organizadores recomendam  a utilização integral do modelo de acordo com as orientações apresentadas no manual Modelo SCERTS. 

A Busca do Equilíbrio

O modelo SCERTS se coloca no meio-termo entre abordagens denominadas "prescritivas", ou seja, com "receita" de como fazer as coisas com pessoas autistas, tendo como foco principal ensinar a criança a cumprir solicitações e produzir respostas "corretas" – o que tende a produzir indivíduos passivos, ou "adestrados" - e outra sorte de extremismo, uma abordagem  meramente "facilitadora", ou seja, baseando os  objetivos e as práticas de ensino, principalmente, no acompanhamento das preferências e motivações da criança e aceitando as respostas comportamentais e motivações da criança através da imitação ou de reações emocionais positivas, o que com freqüência resulta em pessoas demasiado autocentradas e mesmo tirânicas.

Como alternativa, adotamos um meio-termo: sermos sistemáticos e semiestruturados, mas também flexíveis, com uma hierarquia padronizada de objetivos em comunicação social e regulação emocional, resultado de pesquisas a respeito das aquisições factíveis para pessoas autistas, selecionada de modo individual e baseada nas necessidades de cada criança e nas prioridades dos seus pais. Desenvolvemos atividades para ser consistentes e previsíveis, com prioridade na comunicação social, na reciprocidade social e emocional e na resolução criativa  de  problemas, fomentada em um contexto de atividades significativas, de vivência compartilhada agradável e de um controle compartilhado da relação.

Embora a intervenção precoce e a adoção de um programa apropriado e abrangente, como o SCERTS, possam modificar muito positivamente o comportamento de uma criança com autismo e ampliar-lhe, maravilhosamente,  as perspectivas, é importante salientar que o objetivo final do modelo não é a cura. A maioria das pessoas com autismo sempre vai necessitar de algum suporte ao longo da vida.  Embora existam promessas "milagrosas" de cura do autismo, isso não é  compartilhado, ainda,  pela  maioria dos profissionais sérios e experientes nem consistente com o nível atual de conhecimento e  pesquisas sobre autismo.


Fátima Dourado

extraido do livro Autismo e Cérebro Social

© Casa da Esperança 2012