Um outro olhar

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A palavra autismo foi cunhada pelo legendário psiquiatra Eugen Bleuler, para se referir a um dos sintomas da esquizofrenia. Apenas em 1943, com o trabalho de Leo Kanner, psiquiatra austríaco radicado nos EUA, passou a designar um transtorno diferenciado.

Desde então, o autismo tem desafiado gerações de cientistas e terapeutas, devido ao comportamento estranho e frequentemente paradoxal das pessoas que têm seu desenvolvimento marcado desse modo.

Autistas com frequência rejeitam o toque físico, não gostam de manter contato olho-a-olho, e optam muitas vezes por uma existência isolada, focada mais em sensações físicas e no interesse por objetos que na vida social, diferentes da maioria das pessoas que não apresentam o transtorno.

Isso desafia enormemente as habilidades, e até mesmo a auto-estima de quem convive com essas pessoas. Uma das características que mais nos define enquanto espécie é sermos gregários. O Homo Sapiens é frequentemente descrito como um "animal social". Ser confrontado com uma pessoa que parece não precisar do outro, renunciando de modo aparentemente deliberado ao contato social nos conduz a questionar a nossa natureza, e as nossas possibilidades, de uma maneira radical.

Isso, somado ao fato de a maioria das pessoas autistas não apresentarem nenhum sinal externo que as distinga das demais, como os olhos "orientais" das pessoas com síndrome de Down, por exemplo, levou gerações de terapeutas a formularem a hipótese de que o autismo seria um transtorno psicogênico, ou seja, causado por relações adoecedoras em um momento crítico do desenvolvimento.

Essa noção, apesar de já haver sido descartada há muito tempo por pesquisas que apontam para alterações estruturais e funcionais no cérebro de pessoas autistas, além de evidências de uma origem genética, ainda hoje surge em palestras e cursos, angariando a atenção tanto de estudantes de profissões da área da saúde quanto de pais, em busca de informações sobre o tema.

A idéia de que o autismo é causado por maus pais é uma das mais perniciosas da história da psicologia. Ela levou muitos pais a venderem seu patrimônio para pagar anos de psicoterapia, destinada a curar um mal fictício, em seu funcionamento psíquico, que pudesse haver causado o autismo de seus filhos, de modo que ele pudesse ser revertido.

A partir do desenvolvimento de técnicas de mapeamento do cérebro por imagem, que passaram a ser utilizadas de modo mais intenso nos anos 90 do século passado, como as Imagens de Ressonância Magnética Funcional (fMRI), pudemos ver o cérebro de ângulos inéditos até então. Assim se pôde observar que os autistas usam o cérebro de um modo diferente do que usamos. Por exemplo: Áreas que normalmente são ativadas pela interação de uma pessoa com objetos, em pessoas com autismo, ativam-se na relação com pessoas.

O Autismo, porém não acontece sempre do mesmo modo com todas as pessoas. Na verdade suas manifestações são tão diversas, que hoje se fala que o autismo é um protótipo, ou paradigma, ou seja, um grupo de características comuns a vários transtornos diferentes.

Algumas pessoas com autismo (entre 25% e 30%, dependendo do estudo), nunca desenvolvem a fala; Este número era até maior uma década atrás, quando havia menos informação disponível para a realização de diagnósticos precoces (50%).

Outras pessoas autistas falam, e muito, mas usando a fala para repetir diálogos de programas de televisão, ou para assuntar sobre temas de sua preferência, com frequencia ignorando o interesse do interlocutor.

Outros ainda usam a fala para se comunicar, mas são auto-centrados, focados em seus interesses, e frequentemente considerados "egoístas" ou "insensíveis" às necessidades comunicativas do outro.

Talvez seja esse o caso de alguns professores que tivemos, do tipo que "sabe muito, mas não sabe transmitir conhecimento". Especula-se que Albert Einstein houvesse sido um destes autistas "sub-clínicos", dentre outros gênios, focados nos fenômenos do mundo físico, e profundamente deslocados quando se trata de relacionamentos.

Pessoas como estas frequentemente casam e constituem família, e são reputados como "donos da verdade", "cabeças-duras", ou "turrões", controlando os rumos da família com mãos de ferro. Só percebem que algo está errado quando um de seus filhos, ou netos, desenvolve um autismo clinicamente detectável, o que acontece com freqüência, e é um ótimo exemplo de o quanto o autismo tem raízes genéticas e hereditárias.

De fato, o autismo é um dos transtornos de maior herdabilidade que se conhece.

Em resumo: o autismo é um transtorno de espectro, o que significa que ele varia em gênero e grau. Há vários níveis de gravidade, e muitas maneiras diferentes com que o autismo se manifesta, mas todos eles têm problemas em três áreas fundamentais: 1) Interação Social, habilidades para iniciar e manter relacionamentos, ou mesmo de compreender as regras implícitas em qualquer relação; 2) Comunicação Social, habilidades para transmitir e compreender mensagens em um sistema simbólico compartilhado, seja ele verbal ou mesmo gestual; e 3) Interesses e Atividades, que em pessoas autistas são restritos, estereotipados e repetitivos.

O Autismo, para além de ser apenas uma doença, é um modo de ser. Acontece muito cedo na vida de uma pessoa, e atinge de modo abrangente todas as áreas de seu desenvolvimento. O diagnóstico é dado tradicionalmente entre o segundo e o terceiro anos de vida, mas alguns sinais estão presentes desde as primeiras semanas de vida.

Pesquisas recentes apontam para a possibilidade de haver uma deficiência no sistema neurônios-espelho, um grupo de células no cérebro que se ativa quando vemos uma outra pessoa se comportando.

Os neuronios-espelho são considerados tão importantes para a psicologia quanto o DNA o foi no século passado para a biologia. Eles são a base biológica da empatia.

Pessoas autistas possuem menos neurônios-espelho, bem como, entre estes neurônios, menos ligações. Por este motivo apresentam dificuldades em participar da vida social.

No entanto, certamente por motivos compensatórios, aqueles dentre os autistas que possuem a inteligência e a fala mais preservadas, tendem a estabelecer relações entre eventos e objetos do mundo físico que estão muito além do alcance de inteligências focadas no mundo social.

Enquanto os nossos cérebros empregam quase toda a energia disponível na elaboração da complexa dança social que caracteriza as nossas vidas, os cérebros autistas muitas vezes pernoitam tentando extrair as leis que regem o movimento das estrelas.

Uma última reflexão evolutiva: se os autistas não foram eliminados pelas leis inexoráveis da evolução, há de haver, em seu modo de funcionamento, benefício para a nossa espécie como um todo. Um certo Homo Sapiens primitivo, não devia ser dos mais sociais. Devia ser um nerdinho fracote, que não era considerado forte o suficiente para ir caçar com o bando. Ficou na caverna, girando umas pedras. Girou-as tantas vezes e com tanta habilidade, que inventou a roda.

© Casa da Esperança 2012