Sobre Autistas, Psicólogos e Psicopatas

Sobre autistas, psicólogos e psicopatas

No último domingo, dia 16 de dezembro, no quadro “Divã do Faustão”, do programa do apresentador Fausto Silva, testemunhamos uma psicóloga falando sobre o massacre da escola Sandy Hook, em Newtown, Connecticut, Nos Estados Unidos.

As declarações da psicóloga deixaram perplexas e preocupadas muitas pessoas com síndrome de Asperger, seus pais, amigos, e profissionais que com elas convivem, pois viram-se associados ao assassinato em massa e à psicopatia por uma suposta autoridade no assunto.

O Brasil se encontra em um processo de discussão intensa sobre a inclusão de pessoas com autismo e síndrome de Asperger na escola regular. Muitas famílias e escolas têm conjugado esforços para que a inclusão deixe de ser apenas uma exigência legal e se torne uma realidade cultural em nosso país.

As declarações da psicóloga, veiculadas em um meio tão amplo de difusão como o Programa do Faustão, são um gigantesco empurrão para trás neste processo. Sua fala foi ambígua e confusa, tendo ela misturado Síndrome de Asperger e psicopatia na sua explicação, deixando para o leigo a idéia de que as pessoas autistas são perigosas e assassinas em potencial.

Adicionalmente, ela ainda citou traços de comportamento a serem observados em crianças, que sinalizariam uma possível psicopatia (ou síndrome de Asperger, poder-se-ia supor), ecoando em sua fala, para este fim, o ditado popular “tem mãe que é cega”.

Chegou a citar como exemplo o caso de Suzane Hitchoffen, assassina condenada pela morte de ambos os pais.

O pior tipo de psicologia é a que o leigo julga compreender e até exercer, às vezes. Quando um profissional da psicologia professa este tipo de “achismo” psicológico, temos a confirmação de algumas noções errôneas, com conseqüências graves, neste caso, para as pessoas com síndrome de Asperger.

A Síndrome de Asperger foi batizada com o nome do psiquiatra Hans Asperger, que em 1944 descreveu um grupo de pacientes com uma condição que ele batizou de Autistiche Psychopathen im Kindesalter. Uma tradução moderna do termo “psicopatia” ou “psychopathy”, em inglês, segundo Tony Atwood em seu livro “The complete guide to Asperger Syndrom” seria Transtorno, e não psicopatia, precisamente pela associação popular moderna do termo com comportamentos violentos e assassinato.

Na década de 40, na Alemanha, não se fazia essa associação. O termo era apenas uma junção de pathos (doença) e psico (mente), denotando um desvio do funcionamento normal da mente.

Hoje, é necessário lembrar, não se encontra mais o termo “psicopatia” nos manuais de psiquiatria. O que o senso comum chama de psicopata é a pessoa com um transtorno de personalidade anti-social. Não há relação, direta ou indireta, entre o funcionamento de uma pessoa com Transtorno de Asperger e o de uma pessoa com um transtorno da personalidade anti-social.

Primeiro, Asperger é um transtorno do desenvolvimento. É descrito como uma dificuldade qualitativa de comunicação e interação social, levando a uma série de outras dificuldades executivas, de planejamento e compreensão social. Por definição, essas pessoas são ingênuas e incapazes de malícia, e frequentemente, não conseguem mentir, nem fazer nada que considerem errado.

Uma pessoa com Transtorno da Personalidade Anti-Social, ao contrário disto, tem plena consciência das regras sociais, tanto que sente-se compelido a transgredi-las, frequentemente para causar medo ou dor em outras pessoas, que podem considerar culpadas de seus problemas.

Estas pessoas têm uma diminuição da empatia, mas não do mesmo componente empático que as pessoas com Transtorno de Asperger.

Os “Aspies”, como gostam de ser chamadas as pessoas com o Transtorno, frequentemente se identificam com ícones culturais de inocência e inabilidade social, como o Físico Sheldon Cooper, personagem do seriado “Big Bang, a Teoria”, que retrata uma turma de nerds em suas excelências intelectuais e igualmente enormes “gafes” sociais.

Outro personagem com que se identificam com frequencia é o Tenente-Comandante Data, do seriado “Jornada nas Estrelas, a Nova Geração”, um andróide que tenta sempre ser humano, e invariavelmente tropeça em suas dificuldades de compreender por que as pessoas fazem o que fazem.

Outros ainda se identificam com Sherlock Holmes, o mestre da lógica dedutiva criado por Sir Arthur Conan Doyle.

Estes personagens são frequentemente utilizados na psicoterapia, para estimular uma saudável auto-estima, ao mesmo tempo em que dão uma noção dos limites pessoais dos “Aspies”, e de como conviver com eles.

Não conheço nenhuma pessoa com Síndrome de Asperger que tenha identificação com o serial killer Dexter, do seriado homônimo, ou outro personagem capaz de qualquer crueldade.

Pessoas com Transtorno da Personalidade Anti-Social, na definição do manual nosológico da Associação Americana de Psiquiatria, só podem receber este diagnóstico com 18 anos (Critério B do DSM IV). Assim, ensinar as pessoas a diagnosticar um psicopata entre seus filhos ou alunos não apenas fere a ética e o bom senso, mas também a nosologia psiquiátrica.

O atirador de Newtown, na avaliação de seu irmão, era “meio autista”. Deixando de lado o fato de seu irmão não ser uma pessoa abalizada para conferir-lhe um diagnóstico (a palavra ‘autista’ é usada até mesmo por políticos contra desafetos), assumir que ele tinha síndrome de Asperger no contexto de um programa de tamanha audiência é uma tremenda irresponsabilidade.

É de inteira responsabilidade da rede Globo de Televisão veicular no mesmo Faustão no domingo que vem uma entrevista com um profissional que possa corrigir os fatos para o povo brasileiro, e proteger as pessoas com autismo, que — longe de serem psicopatas agressores — frequentemente são vítimas de psicopatas, na forma de valentões nas escolas e na vida, que podem bem usar a psicologia do “Divã do Faustão” para acusar as vítimas de serem agressores.

Alexandre Costa é psicólogo, trabalha com autismo há 19 anos, e há 18 anos, escolheu ser pai de dois autistas, Giordano e Pablo. Junto com Fátima Dourado, mãe dos mesmos dois autistas, dirige a Casa da Esperança.

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