Autismo e Cérebro Social

APRESENTAÇÃO

Conheci Fátima Dourado em um daqueles momentos críticos da vida em que uma pessoa está decidindo quem vai ser, logo que sai da adolescência. Tinha 20 anos de idade. Na verdade, antes disso, conhecia outra Fátima, a que aparecia na TV, inalcançável, a guerreira, a amazona. 

Símbolo público da força da Mulher, sem nunca abdicar da doçura, ela era modelo de muitas outras mulheres de sua geração. Essa mulher, eu já conhecia, e até admirava. Mas nunca aprendi a amar. 

A mulher que me fez descobrir quem sou, e me definiu, de certo modo, como profissional e como homem, não era heroína em absoluto. Era a mãe de quatro filhos pequenos, dois dos quais com autismo, e agora é também a mãe dos meus dois filhos, Gabriel e Teresa.

Essa mulher é forte, tal como a outra, mas sua força advém de uma corajosa aceitação de sua humanidade, de seus limites, de sua fragilidade. É mais complexa que a outra, e incomparavelmente mais apaixonante. É a mulher da minha vida.

Nestas páginas, você a conhecerá um pouco. Além disso, você também será apresentado às tantas perguntas e algumas respostas concretas que a ciência atual formulou sobre o autismo. 

Fátima  criou e é cria da Casa da Esperança uma oficina de terapeutas geniais, que a têm como modelo e a nossos pacientes autistas, como professores: mais de 400 famílias são atendidas, atualmente, em nossas instalações, em dois estados brasileiros. 

Meu amor por ela só aumentou, com o passar dos quase vinte anos que temos dividido, pessoal e profissionalmente. Com ela aprendi muito. Desde que abraçou o autismo profissionalmente, há quase o mesmo tempo, criou um inquebrantável foco de atenção sobre qualquer texto contendo a palavra autismo. Leitora voraz, quase toda a literatura disponível sobre o assunto já passou pelo crivo de seu cérebro poderoso. 

Lendo este livro, você terá a oportunidade de ler o autismo pelos seus olhos castanhos e atentos, aos quais não escapa nenhum detalhe da curiosa complexidade do tema.

Você apreciará as diferentes formas de ver o autismo, e de lidar com ele. E talvez descubra que o que considerava  uma tragédia  pode ser desafio criativo, motor de uma nova maneira de interagir com seu filho, paciente ou aluno com autismo.

Sua perspectiva não é acadêmica, é antropofágica: toda a literatura que ela consumiu também processou, cotejou com sua experiência profissional e pessoal, como mãe de duas pessoas com transtorno do espectro do autismo, e converteu em palavras doces e densas, que tanto lhe vão informar e instrumentalizar, como também encantar e emocionar


© Casa da Esperança 2012